Encontro com Mefistófeles


   Há casos realmente que para o vulgo parecem impossíveis e fantásticos mas que são a mais pura realidade que podemos vivenciar e experimentar.

   O quinze como já dissemos representam as Paixões, e claro a luta pelo domínio das paixões.

   No quinze encontramos aquele mistério que se refere a transformação das coisas vis nas coisas mais puras, tal qual é o mistério da Alquimia.

   “Eu creio no mistério do Bafometo e do Demiurgo” - Ritual Gnóstico

   Certo dia quinze pudemos experimentar mais uma vez um reencontro cara a cara com nosso Mefistófeles pessoal, nosso Cérberus, nosso Prometeu já não mais acorrentado a sua dura rocha a qual fora uma vez submetido.

   Temos uma particularidade que é que recordamos os processos internos das provas iniciáticas. Então podemos recordar desde aquele primeiro enfrentamento do Guardião do Umbral, e claro aquela forma tão terrível e tão animal a qual se apresentava.

   Não negamos, não podemos negar, que naquela época não tínhamos a devida preparação para a prova, a ante a presença do Guardião do Umbral, fugimos espavoridos.

   Claro que alguns dias depois os Mestres nos submeteram novamente a mesma prova, mas desta vez já estávamos preparados.

   Em nossa psique podíamos ver aquelas criaturas correndo sem rumo e gritando “Ele está vindo, ele está vindo!”, e se trancando em suas casas.

   Logo aquela tempestade elétrica, uma tempestade de areia, aquele terrível furacão e a presença daquilo que mais parecia-se com um gorila do que com qualquer outra criatura que pudéssemos nominar para dar uma noção de sua forma. Desta vez claro o vencemos, nossa última recordação desta luta antes do diálogo com um Mestre, foi de estarmos com a fera dominada e sentados sobre seu peito, estando esta totalmente imobilizada e sem reação.

   Por muitas vezes vimos esta criatura em diferentes regiões, pois não existe apenas um Guardião do Umbral, existem três (Astral, Mental e Causal).

   Algumas vezes este impulso sexual desviado, esta Paixão corrompida dentro de nós, nos colocou provas, nos orientou também quando já mais purificado.

   Mas sempre foi uma presença a qual nos causava algum temor, visto que era de uma beleza maligna sempre, todas as vezes.

   Recordamos nestes momentos uma vez que estávamos nos mundos internos e fomos submetidos a uma prova e não passamos na prova. No exato momento que findou a prova esotérica se cristalizou naquela região o Guardião do Umbral, em uma forma terrível, e nos disse claramente: “Me manchaste novamente, não somos mais amigos”.

   Claro, todo este trabalho que viemos realizando desde aquela época que fomos iniciados no caminho secreto, foi cumprir com aquela máxima alquimista: “Queima teus livros e branqueia o latão”.

   É óbvio que tão célebre frase nos indica deixar as teorias de lado e buscar a virtude, a verdade, extrair do lodo de nossa psique, de nosso mundo interior, todas as pedras preciosas que jazem ali ocultas.

   Enfim, não poderíamos enumerar tantos encontros quanto tivemos, apesar de poucas vezes tenhamos nós por nossa iniciativa invocado esta criatura para um diálogo ou para ver nosso progresso, já que é sempre este que representa nosso estado íntimo, pois carrega toda nossa feiura.

   Nesta noite de dia quinze que nos referíamos fomos submetidos a uma destas provas, passamos por um destes processos ligados ao Arcano XV, fomos testados no que diz respeito as Paixões Naturais, Paixões Humanas e também Espirituais.

   Confessamos que não sabemos bem o que estávamos sendo avaliados, porque algumas vezes passamos a prova mas temos que repetir porque não passamos com a perfeição que necessita nosso Ser, pelo processo que ele esteja vivendo, mas entendemos que passamos conforme o que era esperado.

   Terminada a prova, deixamos para trás algumas pessoas que nos acompanhavam e andamos um pouco mais a frente, até uma parada solitária aonde dois caminhos se cruzavam.

   Ali naquela região dos mundos superiores, invocamos a esta criatura, por seu nome peculiar. Sem delongas, sem invocações complexas, apenas chamamos com muita força por três vezes seu nome, em um tom severo.

   Ainda fizemos um grande esforço para poder retirar de nosso interior aquela criatura e poder cristalizá-la para que pudéssemos vê-la como algo distinto a nossa pessoa, pois queríamos lhe fazer certo questionamento.

   Após este esforço, dando como um passo a trás, projetamos naquele mundo tal criatura, nosso Mefistófeles particular, nosso salvador, que primeiramente tivemos que salvar.

   Sua forma era de uma dama, assustada e apavorada por nossa audácia e por nosso controle frente a suas provações internas.

   Tentou ainda fugir de nossa presença ocultando-se sob a sombra de alguma construção e lá encolhida ficou.

   Nos aproximamos e sem nada dizermos, nosso impulso sexual, nosso Terceiro Logos particular, interior, já foi revelando profecias e informações valiosas do que estava por vir.

   É difícil imaginar na prática o resultado das palavras que foram dita por tão sábia criatura. Após alguns relatos ele ainda assinalou: “o pior ainda está por vir”, e assim foi.

   Os Magos Negros, servem e submetem-se a este Mefistófeles. Os Magos Brancos servem-se e utilizam-se sabiamente deste princípio divino depositado no fundo do homem. Este é o Moisés individual de cada homem, a fração do Cristo que baixa para nos resgatar e que acaba presa junto com o homem em suas debilidades.

   Negar o poder de Mefistófeles, é negar o próprio Terceiro Logos e a Misericórdia do Cristo.

   O problema nisto tudo é que não podemos confiar em nossos instintos divinos quando submetidos as paixões animais.

   Necessitamos primeiro fazer o resgate deste, que posteriormente transforma-se em nosso salvador.



MDCLXV