Ambição Espiritual


   Há detalhes muitas vezes incompreendidos no caminho espiritual e que de tempos em tempos temos que realmente deixar de lado qualquer auto-consideração, qualquer fantasia, e rever o que temos de conceitos equivocados sobre o caminho e praticamente retomar do ponto de partida nosso trabalho.

   Tudo se dá de forma espiral, isto já demonstramos. Aos que compreendem como se dá os processos de integração com a Divindade, as iniciações, vemos que toda a jornada que temos de provas e de processos nas Nove Iniciações Menores, é o mesmo que se repete no de correr da jornada em cada uma das Nove Iniciações Maiores.

   Claro que é uma espiral aonde tudo vai tomando uma proporção cada vez maior, cada novo ciclo se mostra mais elevado, mais difícil, mais pesado.

   Por isto é natural dizer isto de começar a obra do zero. Não é que estejamos deixando de lado tudo que foi feito, mas sim tirando o peso dos conceitos equivocados, das teorias, e do intelectualismo que pela atual falta de consciência que temos acaba se misturando com nosso entendimento. Vivendo isto sob uma nova oitava, um novo ciclo em outra escala.

   O Caminho Espiritual é algo de difícil explicação. Não que seja difícil redigir linhas ou emitir palavras precisas sobre ele, mas sim que a transferência deste entendimento, é algo sempre delicado.

   Como em tudo, sempre existem duas forças duais que se opõe uma a outra e na verdade são a mesma, polarizada positivamente ou negativamente.

   A força difícil de encarnar, a força difícil de esgrimir, de possuir-se é exatamente a força neutra.

   Qualquer esforço de transição da força positiva para a negativa, ou de transição da força negativa para a positiva, acaba claro nos conduzindo ao outro extremo e não ao equilíbrio.

   A própria busca pelo equilíbrio já naturalmente nos conduz a uma polarização inversa e não ao próprio equilíbrio.

   Toda pessoa que no mundo é egoísta, que tem ambições de trabalho, de fama pública, de influência para com a sociedade, ao deparar-se com o caminho, cessa do dia para a noite tais ambições.

   Teria por acaso esta pessoa descoberto alguma fórmula mágica para a desintegração instantânea de seus defeitos? Não, claro que não.

   Isto nos traz esta reflexão, porque todos nós certamente silenciamos, do dia para noite muitos defeitos conforme fomos avançando no caminho e buscando as virtudes e a integração com nossa parte espiritual.

   Muitos se queixam de ausência de iluminação, de falta de comprovação, e isto claro demonstra que a origem da inconsciência continua habitando dentro de cada um de nós. Mas onde, como?

   Ambição é ambição, e por mais que a pessoa não queira ter um belo carro ou o perfume mais famoso, ela pode simplesmente ter substituído isto por questões distintas e inversas. Polarizou o que era negativo e material por algo positivo e espiritual, mas, ainda assim, ambiciona algo.

   O Espiritualista, o próprio gnóstico, almeja ter muitos livros dos Mestres, ter as mais grandes fórmulas e teurgias secretas. Ambiciona influência institucional, poderes não só sobre a natureza mas talvez até sobre forças superiores as mesmas.

   Se ambiciona e faz de tudo para ter isto, muitas vezes com grandes sacrifícios. Mas como sempre, ali vemos em meio ao incenso da oração, o delito.

   O delito, como dizem os Mestres, se veste de mártir. Quantos hoje em dia ambicionam ser Mestres, até se passam por Mestres em seu devaneio e loucura por sua busca.

   O Eu na verdade fortifica-se exatamente destes esforços ambiciosos em qualquer uma destas direções.

   O Eu está nas pontas, e aonde há interesse, aonde há ambição, há fortificação do Eu.

   Há pessoas que ambicionam as próprias virtudes, como se fosse possível chegar a elas por meio do impulso gerado por qualquer defeito que tenhamos.

   Se reprimimos a ambição, ela acaba fortalecendo-se, se permitimos com que se manifeste, ela igualmente alimenta-se disto. Como nos ensinam os Mestres, até a luta por eliminar a ambição é a própria ambição atuando.

   Então o que nos resta? Pois a compreensão.

   O primeiro e único passo correto para eliminar a ambição e poder sair destes extremos mecânicos da vida, seja ela uma busca material ou espiritual, é a compreensão desta ambição dentro de cada um de nós.

   A resignação frente aos impulsos, aos eventos, frente a todas estas questões, é o que nos permite, uma vez compreendida a ambição, não agirmos por este impulso tenebroso.

   Enquanto haja ambição dentro do homem, a iluminação espiritual será apenas um sonho a mais com que a ambição deseja satisfazer-se sem jamais poder alcançar.

   Quando a ambição cesse sua expressão, poderemos receber cara a cara todos os desígnios de nosso Real Ser.



MDCLXV